REEDIÇÃO DE IERECÊ A GUANÁ
NOVELA DO VISCONDE DE TAUNAY 126 ANOS DEPOIS
Antonio Candido em Formação da Literatura Brasileira, dedica todo um capítulo ao Visconde de Taunay, texto esse que encontra-se reproduzido nesta reedição e onde a novela Ierecê a guaná (1874) é elogiosamente mencionada, pois contém "algumas das boas páginas" do nosso romantismo. Entretanto essa obra continua inacessível, possivelmente por manter-se fora de mercado desde sua publicação original, o que justificaria a sua não menção por parte de outros historiadores da literatura, como se pôde averiguar.
Durante a Guerra do Paraguai, da qual participou ativamente como oficial e engenheiro militar, Taunay passou seis meses convivendo com índios da fronteira. Lá ele conheceu e se apaixonou por uma jovem índia ainda adolescente chamada Antônia e que viria a ser sua amante. Tal romance foi recriado na novela Ierecê a guaná.
Em suas Memórias (obra em que estou no momento trabalhando juntamente com meu orientador também para fins de publicação), Taunay afirma sem falsa modéstia, ser ele o único escritor da sua geração a ter convivido intimamente com os índios, chegou inclusive a registrar um vocabulário com aproximadamente 2000 termos da língua guaná, língua falada por Antônia, além de uma breve gramática do idioma. O que restou desse vocabulário, já que a maior parte perdeu-se durante a Guerra do Paraguai, encontra-se reproduzido nessa reedição.
Quando escreveu Ierecê a guaná, Taunay também estava preocupado em traçar um retrato "verdadeiro" dos índios brasileiros, mostrando seus costumes com certa "objetividade etnográfica". Assim, a exemplo dos cronistas dos séculos XVIII e XIX que ele tanto admirava, buscou dar certa veracidade à sua ficção. Dessa forma, temos presentes nessa novela não apenas o compromisso artístico mas também uma preocupação até certo ponto "científica" por parte do Visconde de Taunay.
Partindo de algumas passagens das suas Memórias, é possível afirmar que Taunay ao redigir Ierecê a guaná, tencionava oferecer sua "versão pessoal" de Iracema de José de Alencar, escritor que se por um lado admirava, por outro também o considerava demasiadamente "homem de letras". Entendia Taunay que os índios de Alencar tanto em Iracema como em O Guarani, eram por demais idealizados e em nada se assemelhavam à realidade dos "nossos aborígenes". Cabe aqui citar o seguinte comentário feito por Taunay nas suas Memórias:
Nos seus índios deixou Alencar a trilha aberta por Fenimore Cooper para de perto seguir Chateaubriand e reeditar as pieguices de que se constituiu porta-voz este escritor, tornando-as toleráveis a poder de pompa e do brilhantismo da frase.
Tudo porém artificial e cansativo.
Dos índios fez Alencar heróis de verdadeiras fábulas, oriundas dos Natchez, Atala e René, a falar com linguagem poética e figurada de exuberância e feição oriental.
Conheci-os bem de perto, com eles vivi seis meses a fio e pude observá-los detidamente. E eram aborígenes de procedência e cunho mais elevados, chanés de Mato Grosso que se dividiam em quatro numerosos grupos — choronós ou guanás, quiniquinaos, laianos e terenas.
De certo tinham fraseologia por vezes pitoresca, mas daí a conversações todas de tropos e elegantes imagens há um mundo. (Memórias 1948: 229 – 230 ).
Sobre essa "versão pessoal" de Iracema escrita pelo Visconde de Taunay, Haroldo de Campos escreveu para esta reedição de Ierecê a guaná o ensaio Ierecê e Iracema: do verismo etnográfico à magia verbal, onde estabelece uma relação de confronto entre a linguagem poética de Iracema e a científico-artística de Ierecê a guaná. Além de discutir essa questão da linguagem entre os textos dos dois escritores, também discute a "veracidade" nas duas obras sendo que, ao seu ver, a novela de Alencar mesmo que fantasiosa consegue, sem ser essa sua proposta, momentos muito mais "realistas" do que a pretensa realidade existente na novela de Taunay.
É através dessa linguagem "fantasiosa" que Haroldo de Campos coloca a obra de Alencar esteticamente num patamar superior à de Taunay. Para Campos, a linguagem mais "realista" utilizada por Taunay quando comparada àquela repleta dos tais "tropos e elegantes imagens" dos índios de Alencar, acaba por sugerir momentos mais "realistas" em Iracema do que em Ierecê a guaná.
Para Taunay, Alencar "não conhecia absolutamente a natureza brasileira, que tanto queria reproduzir, nem dela estava imbuído" procurando através de leituras suprir essa falta de conhecimento sobre o assunto, ao contrário dele que a conheceu de perto durante sua longa estada nos "fundos sertões" à época da Guerra do Paraguai, quando fez várias anotações de cunho etnográfico.
A partir dessas anotações e de suas experiências como etnógrafo amador é que Taunay irá escrever o idílio entre o entediado homem da corte e a selvagem habitante dos "ínvios sertões", buscando dessa maneira, dar o máximo de veracidade à sua novela, o que ao ser ver, faltara à Obra de Alencar. É visando tornar a obra mais verossímil que Taunay reproduz em Ierecê a guaná diálogos em língua guaná, traduzindo-os em notas de rodapé.
Todavia, para Haroldo de Campos, Iracema, escrita sem nenhum "suporte realístico" e que por isso para Taunay teria uma linguagem um tanto quanto imaginativa demais, apresenta momentos bem mais "verossímeis" que Ierecê a guaná.
Para confirmar essa afirmação Haroldo discute a sexualidade nas duas obras, sobretudo das duas índias, comparando o erotismo comedido na índia guaná com a sexual espontaneidade na índia tabajara, argumentando que na novela de Taunay o máximo que nos é revelado e em tom informativo são os seios de Ierecê, "pequenos e empinados", aliás, como o das três índias guanás que juntamente com Ierecê, executam uma dança para Alberto que distrai-se mediocremente. Podendo escolher a que mais lhe agradasse entre a três índias, Alberto prefere Ierecê e a leva para a cabana. É esse o máximo do convívio erótico do casal que o narrador permite vislumbrar, preferindo durante toda a trama a omissão.
Já na novela de Alencar, a situação difere: Iracema submete o amante sob o poder de drogas fazendo com que esse a possua num estado de torpor, indo em seguida a realização de seus desejos, banhar-se nas águas de um riacho. Cito Haroldo de Campos:
Que diferença entre esse comportamento manso e subalterno da nativa antropologicamente "verídica" de Taunay e o modo de agir da Iracema imaginada por Alencar! A selvagem em estado de natureza, mulher espontaneamente livre, que não tem peias na exteriorização dos seus desejos! Que droga o guerreiro português, castamente relutante devido a seus padrões de honra, e o faz possuí-la no abandono do semiadormecer. Consumado o enlace na rede nupcial, Iracema — sempre espontânea — vai lavar-se nas águas de um riacho (...) (Ierecê a guaná 2000: 165-166)
Para o crítico e poeta paulista, essas duas passagens revelariam que a pretensa veracidade da novela do Visconde, nem sempre se sustenta diante da "fantasia" Alencariana. Enquanto a relação de Ierecê com o amante era de total submissão pois, Ierecê via em Alberto Monteiro um ente superior a quem tudo devia, mesmo sabendo não passar de "mero passatempo" para aquele português, sendo essa uma postura, que descaracterizaria sua natureza "selvagem". Já Iracema, ao contrário, age como uma legítima guerreira ao subjugar seu amante. Todavia, cabe aqui ressaltar que se Iracema jamais teve contato com o homem branco, Ierecê foi criada e cresceu entre eles e embora conservasse a sua cultura, tinha em si uma certa "consciência" e aceitação dessa inferioridade.
Mas voltando a questão da veracidade nas duas índias. Haroldo de Campos considera que devido a essa postura totalmente submissa, a índia do idílio de Taunay está muito mais próxima da Atala de Chateaubriand do que a idealizada por Alencar, crítica essa, feita pelo próprio Taunay ao romancista cearense.
Assim, na visão de Campos, José de Alencar sem "conhecer absolutamente nada da natureza brasileira", constrói uma personagem que pelo menos nessa passagem, está muito mais próxima de uma índia pertencente a uma selvagem e guerreira tribo indígena, do que a personagem recriada por Taunay.
Entretanto, creio que no que concerne o aspecto geral da obra, Ierecê a guaná corresponde às pretensões realistas do Visconde. Voltarei a esse ponto mais a frente. Outra discussão estabelecida por Haroldo de Campos é de natureza estética.
Comparando a descrição das duas índias, Haroldo comenta que "o toque verista quase a modo de laudo "etno-médico", também interfere quebrando o "encantamento poético" que porventura pudesse estar presente em Ierecê a guaná.
Taunay descreve Ierecê como uma "indiazinha de belos traços" que mostrava "quando muito quinze anos, idade da plenitude de mocidade e beleza naquelas localidades em que o desenvolvimento da puberdade, já de si precoce, é quase sempre apressado". Tinha Ierecê "pés e mãos de uma pequenez e delicadeza dignas de cuidadosa atenção".
Essa descrição da índia chané que para Campos tem um tom documental e por vezes parece do tipo "ficha anatômica", se ganha em exatidão antropológica, perde de longe quando comparada a Iracema em qualidade estética.
Assim, o "compromisso" com a veracidade antropológica, teria impedido Taunay de criar momentos mais poéticos, embora haja nítidos esforços para tanto como assinala Campos, ao passo que Alencar, ao não ter tal compromisso, estaria mais a vontade para ser mais audacioso no campo da estética.
A conhecida descrição de Iracema merece por parte de Haroldo de Campos uma análise formal a qual, segundo ele, revela por parte de Alencar uma "cuidadosa escolha fono-lexical". Passo agora a tal análise.
O sintagma "Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão", ressoa para Campos "como um Leitimotiv, em RápIdA EMA/ SELvAgEM/ MoRENA (onde o N consonântico compensa o M da sílaba final). Tal sintagma expõe o primor estético conseguido por Alencar em Iracema”.
Taunay em dados momentos também consegue um sintagma mais "estilizado" como em: "(...) cujas águas cristalinas acompanhavam densa e dupla orla de buritis e taquaruçus". Segundo Campos, a aliteração — Densa/ Dupla; o apoio de tipo reiterativo — dupLA/ orLA; a entressoante inscrição de nomes indígenas de plantas — bURiTIS/TaquaRUÇUS, seriam um exemplo das tentativas do Visconde em obter um texto esteticamente mais elaborado.
Todavia, o seu "comprometimento antropológico" faz com que seja impossível manter a narrativa de tal maneira, levando-a em certos momentos a lugares comuns e a velhos clichês românticos. Entretanto, parece-me que Alencar e Taunay ao escreverem suas novelas, objetivavam coisas diferentes.
Mesmo que ao escrever Ierecê a guaná Taunay tencionasse dar uma "resposta" a Alencar, essa não opera no plano poético como discute Haroldo de Campos. Ao contrário de Alencar, a preocupação de Taunay é desde o início estreitar ao máximo a diferença entre realidade e ficção, mesmo porque, Ierecê a guaná tem em sua gênese um episódio verídico, o que não ocorre em Iracema, fruto da imaginação de Alencar.
Cabe aqui, citar o primeiro parágrafo de Ierecê a guaná em que, segundo Sérgio Medeiros, "a voz do narrador lembra a voz do engenheiro militar que escreveu a crônica histórica A Retirada da Laguna num estilo direto e econômico". Passo a citação:
Em meados do ano de 1861, o vaporzinho Alpha, subindo da capital da província de Mato Grosso, desceu para Corumbá, e , por ordem do presidente de então, o coronel Antônio Pedro de Alencastro, demandou a foz do rio Mondego ou Miranda, cuja corrente foi cortando águas acima para conhecer das condições de sua navegabilidade durante a estação seca até a vila de Miranda, a qual assenta na margem direita e a mais de 40 léguas do ponto em que o volumoso e revolto caudal faz barra no grande Paraguai. Cumprida a comissão sem grande estorvo, pôde o fumegante barco atracar junto à barranca da povoação, alvoroçando repentinamente de alegria e perturbando de modo nunca visto o costumado e natural sossego daquela distante localidade. (Ierecê a guaná 2000: 31 –31)
Assim, a narrativa de Ierecê a guaná que de início é feita em um tom claramente documental, passará rápida e fluentemente para o ficcional.
Ao meu ver, a preocupação de Taunay não era oferecer uma "versão" dessa obra de Alencar simplesmente parafraseando-a, mas sim, escrever ficção tendo por base fatos reais que poderiam tolher a liberdade de criação própria do campo ficcional e, ainda assim, garantir a essa experiência fruição estética.
Portanto essa "resposta" a Alencar não é necessariamente ao escritor cearense e à sua obra, que por sinal Taunay muito admirava, mas a um período e estilo de época que estava sendo reavaliado.
Ainda que presa a certas convenções estéticas da época, Ierecê a guaná assumiria então, uma postura crítica em relação a essas mesmas convenções, como por exemplo, a de ser o protagonista sempre o índio-herói-de-bom-caráter, o que Taunay questionará através de uma inversão de pólo e valores nas duas personagens predominantes da novela, o que torna a obra muito mais próxima da realidade.
Entendo como inversão de pólo e valores o fato do herói aqui não ser mais o índio mas sim, o homem branco cujos valores morais nesse caso são questionáveis. Alberto Monteiro contrai núpcias com Ierecê, mediante um punhado de sal pagos ao seu avô o velho pajé Morevi, além de um colar de contas de ouro que fascinara a noiva e a quem foi oferecido. Da mesma forma inescrupulosa, o branco abandona a índia sem lhe dar uma satisfação que sequer fosse convincente, vindo ela a morrer em conseqüência desse abandono.
Embora a jovem índia chané dê o título à obra ela é uma protagonista secundária. Taunay impede a indiazinha de ser a heroína da história, dando essa função a um anti-herói, o entediado dândi Alberto Monteiro. Este aproveita-se de uma situação cultural que o deixa a vontade para relegar em segundo plano os códigos éticos de sua cultura, permitindo-se dessa maneira, agir inescrupulosamente, seja quando sequer pensa nas conseqüências que poderia trazer a Ierecê o seu capricho amoroso (e que redundará em fracasso, falarei sobre isso mais a frente), seja quando não permite a Ierecê agir segundo seus costumes em seu próprio espaço físico, influindo em relação a cultura dela, quando não arbitrariamente, cinicamente.
Assim, se Iracema no entender de Campos tem momentos mais "realistas" do que Ierecê a guaná, por outro lado, as diferenças culturais existentes entre os amantes são realçadas pelo narrador quando o português revela-se intolerante para com o outro. Creio que é justamente essa relação conflituosa e não menos violenta, mas disfarçada pela omissão, que torna a novela de Taunay bastante verossímil no que diz respeito ao aspecto geral da obra.
Incapaz de respeitar e compreender uma cultura distinta da sua e a qual considera inferior, Alberto Monteiro tenta de várias maneiras moldar Ierecê aos seus parâmetros culturais. Em momento algum o jovem dândi cogita seriamente a hipótese de permanecer ao lado da amante, tanto na selva quanto na corte para onde sempre soube que voltaria mais cedo ou mais tarde, quisesse Ierecê ou não. Assim, o idílio entre o branco e a índia estava fadado ao fracasso.
Sérgio Medeiros em seu ensaio para essa reedição intitulado As vozes do Visconde de Taunay, ao escrever sobre o idílio entre Ierecê e Alberto, afirma ser "nítido o vislumbre do fracasso da relação entre o branco e a índia".
Ora, mas justamente o contrário deveria ocorrer. Alberto Monteiro é um dândi que entediado com a civilização (e poderíamos estender aqui com sua própria cultura) põe-se a "vagar" pelo mundo não apenas em busca de distração, mas também e principalmente, em busca daquele objeto de desejo tão ao gosto e idealizado pelo Romantismo, ou seja, o lugar paradisíaco e ainda selvagem, puro e não tocado pelas mãos do homem branco. E é essa a primeira visão que Alberto Monteiro tem ao chegar ao vale do Hetagati. Cito um trecho de Ierecê a guaná:
Não se podia encontrar retiro mais lindo, situação mais aprazível e sossegada. — Que belo canto do mundo para a gente viver tranqüila e esquecida, exclamou Alberto. (Ierecê a guaná: 2000. 43 – 43)
E é ali perfeitamente integrada nesse locus amoenus paradisíaco-evasivo, que encontrar-se-á Ierecê. Assim, diante dos olhos do viajante, confundem-se cenário e objeto de desejo, tornando propício o idílio que fatalmente ocorrerá pois é esse um clichê do Romantismo.
Enfatizando o que já disse, mesmo com o cenário teoricamente favorável ao romance esse não se realiza totalmente, cabendo perguntar o porquê desse fracasso.
Possivelmente porque esse objeto de desejo seja em sua plenitude inatingível. Tomo por base aqui, para fazer tal afirmação, O mundo como vontade e representação de Schopenhauer segundo o qual, é da natureza humana a insatisfação. Ao atingir ou mesmo aproximar-se do objetivo idealizado, o homem percebe que esse não está a altura da idealização. A conseqüência é a frustração e o tédio. Ora, não é esse o estado em que se encontra Alberto?
Esse entediado Dândi da corte empreende uma longa viagem pelas capitais da América do Sul com o único objetivo de distrair-se, entretanto "Arrepender-se do que acabava de executar era sempre o primeiro movimento de nosso viajante". É essa busca pelo objeto do desejo que leva o jovem da corte a pôr-se numa longa e frustrada viagem, que culminará com sua volta à corte tão logo percebe que o que procurara até então, não está presente nem no vale do Hetagati nem em Ierecê.
Sérgio Medeiros chama a atenção para alguns fatos que não deixam dúvidas sobre o vale do Hetagati e a jovem índia, não enquadrarem-se no ideal paradisíaco perseguido por Alberto Monteiro.
A começar por Ierecê que mesmo bela e sedutora, não é o ideal de beleza feminina almejado pelo Dândi. Esse ideal seria um misto impossível entre a "selvageria e inocência" de uma índia e a "politesse" das damas da corte. Isso é tão flagrante que o tempo todo o viajante tenta moldar a índia para que ela se aproxime de tal ideal o que, curiosamente, ambos sabiam ser impossível.
Assim, Alberto prefere divagar sobre Ierecê na corte ao invés de propor concretamente a questão. E quando essa idéia é superficialmente cogitada, a própria Ierecê ao ser indagada se gostaria de ir para tal lugar, afasta de imediato a idéia afirmando:
Nhôr-não: Ierecê ficava feia perto das portuguesas tão alvas e bonitas. Eu nasci para o mato. Depois na cidade minha gente morre toda de bexigas. (Ierecê a guaná : 2000. 43 – 43
Esse argumento simplório e ingênuo é aceito por Alberto cinicamente. Ele sabe que o conflito aqui não se reduz ao fato de que a índia "ficará feia perto das portuguesas tão alvas e bonitas" mas sim, ao fato de que sua cultura, segundo os pressupostos do português, é inferior: logo, a adaptação da índia em um lugar tão distante, cultural e territorialmente falando, é algo impossível.
O próprio aldeamento onde habita Ierecê não é o paraíso o qual tinha em mente o viajante. O aldeamento situava-se a meio caminho entre a civilização infecta de onde vinha o branco e o paraíso ecológico inalcansável. Habitava nesse entre lugar entre o real e o sonho, apenas Ierecê e seu avô (o narrador não menciona tribo, apenas três choupanas), que não passava de um pajé decadente o qual não era levado a sério nem pelas jovens amigas de Ierecê, que apossam-se de sua cabana obrigando-o a dormir ao relento.
Assim, ao perceber que tanto Ierecê quanto o vale do Hetagati não são o objeto de desejo idealizado pelo dândi romântico, a esse não resta outra alternativa a não ser voltar à corte.
Enfim, Ierecê a guaná sustenta-se ainda hoje 126 anos após sua primeira publicação, não apenas pela "arriscada tentativa de re-escrever a obra prima de Alencar" como afirma Lúcia Sá. Sem dúvida que esse diálogo entre os dois escritores românticos e as duas obras em questão, contribuem para o apreço de ambas, principalmente no caso do Visconde de Taunay.
Já em questões estéticas, Ierecê a guaná difere bastante de Iracema. No entanto, rescrever a obra de Alencar com pretensões de superá-la esteticamente, creio, como já afirmei, não era o objetivo maior de Taunay.
O fato é que, não importando o que o Visconde tivesse em mente quando escreveu Ierecê a guaná, essa obra acaba se sustentando esteticamente por ela própria, independente das comparações com Iracema.
Enfim, por fazer parte ainda da estética romântica mas já criticando tal movimento, essa talvez despretensiosa novela do Visconde de Taunay, aponta para a estética subsequente ao romantismo, o que fez Antonio Candido em Formação da Literatura Brasileira, no capítulo que dedicou ao Visconde, referir-se a Ierecê a guaná como uma obra de transição entre o Romantismo e o Realismo.
Por fim, um fato curioso ou "pitoresco" como Taunay gostava de referir-se a acontecimentos, é que em conversa reservada com o então Imperador D. Pedro II. reproduzida em suas memórias, o Visconde não menciona a novela Ierecê a guaná como uma das suas obras que ficarão para a posteridade, ao contrário de Inocência e A Retirada da Laguna das quais ele tem certeza que ficarão para apreciação das gerações futuras.
Assim, não deixa de ser interessante o fato de que ao contrário do que o próprio Taunay imaginava, a novela Ierecê a guaná, que segundo Antonio Candido é a "melhor de quantas escreveu", conseguiu despertar interesse e certa polêmica passados 126 anos depois da sua primeira edição.